4.12.04

fim...ou o recomeço de uma outra história que não será contada

De olhos fechados, Gabriela deixou-se ir até sentir a brisa acordá-la por dentro. Lentamente abriu o olhar e renasceu entre o azul e o verde. Ficara sem palavras envolvida num enorme sorriso que a aquecia por dentro. Explodia, aturdida em sentires e deixou-se voar.
Perceberam, sentiram que ali entre o céu e o mar se fundiam as suas almas, num só molde num só ser.
Já na praia ainda se sentiam gaivota. Sempre num silêncio recheado de sentires caminhavam agora. Abraçados, lado a lado, passo a passo, sem tempo. Percorriam as almas de cada um, numa viagem multicolor a um universo desconhecido. O deles num só olhar.

Joaquim não se lembrava da despedida, estava ausente na felicidade que o entrelaçava nos passos.
Percorria-se no seu ir. Pela primeira vez na sua vida ia, sem perguntas.
Deixava-se escorregar na vida.

Não se apercebeu do momento em que o chão começou a dançar e um cardume de luzes irrequietas saltitaram num repentino escuro que lhe toldou o olhar.
Uma dor brusca e dilacerante percorreu-lhe o corpo.
Uma única lembrança.
Um gesto, perdido no Tempo. O de levar as mãos em reflexo de dor sem grito, junto à cabeça. Era essa a lembrança que tinha, que permanecia, antes de um cobertor de vazio o cobrir. A sua ultima lembrança era de um banal, e vulgar reflexo…

Olá Joaquim!Olá Gaspar!

Gabriela estava sentada, serena a olhar uma enorme tela azul mar. Contemplava-a com ternura. Eram os seus azuis, aqueles que lhe deram vida e sentido.
Quase no horizonte estava uma pequena gaivota. Só de perto se percebia a gaivota, de longe intuía-se uma janela. Era essa pequena ilusão que tornara o seu quadro único e motivo de incessantes elogios. No canto direito, quase ilegível desenhava-se em sépia-sangue “Gabi, 2004”.

Gaspar sentou-se ao lado de Gabi, em silêncios mudos e estendeu-lhe a mão.
Apertou-a suave como um beijo. Gabriela sorriu.
A vida renascia-lhe no corpo e no olhar.
Duplicava-se…

16.10.04

20

Foram, em silêncios. Caminhavam na noite de Outonos frios, na praia, iluminados pelos brancos das ondas, e pelos reflexos-prata de uma lua que insistia em estar presente, desinibida, cheia, num Novembro, calmo.
Sentiam-se, lado a lado, ouviam o mundo em passos que se passeavam sozinhos, lentos a parar o tempo. As palavras não se atreviam a espreitar, com o medo de quebra o encanto que os levava. Iam, sem tocar os corpos, sem uma mão dada. Tímidos. Sem palavras e sem corpos, em cumplicidades, senhores da vida.
Em momento que não souberam, as palavras jorraram, explodiram, primeiro espaçadas, depois em conversa que desaguava rio, naquele mar que os embalava. Ele contou-se de menino a engenheiro, ela, de menina a mulher de sonhos muitos, primeiro escritora-pintora, depois palhaço, depois terapeuta da fala.
Sentados, na areia, ela com o casaco dele, a esconder as mãos e o corpo, ele, quente-rubro de felicidade infantil e olhos num horizonte que não via, escondido na noite.
Contaram-se, numa ânsia de ligarem os destinos àquele momento. Abriram-se em segredos, nos amores e nos desamores. Riram, choraram, viveram, deram o tempo todo que tinham, a cada um, numa noite que não sentiram correr, num tempo que não existiu para eles.
Ao som das ondas, do mar, amaram-se, quando o sol pintou o céu de vermelhos de Outono.
Sabes Quim, hoje senti-me a voar…
A voar? Interrogou. Olhou para o relógio, era cedo, mas sabia que Laura, antiga colaboradora que criou uma empresa de formação profissional, mas que se especializara na motivação de equipas e no envolvimento em grupo, através de acções de interacção com a natureza e actividades radicais, estaria levantada, entregue já ao planeamento do seu dia. Ligou o telemóvel. Filhota? Viva, Quim, que bom ouvir-te! Já a trabalhar? Não, hoje não, ainda não. Para te ser franco, nem sei se vá hoje. Estás doente? Não Laura, mas preciso de um favor teu. Às ordens Chefe! Preciso de uma asa para dois e fatos de treino, quentes, dois. Estou na Figueira da Foz. Podes mandar alguém trazer o equipamento. Hoje? Na Figueira? E os Ventos, olha que está frio…Não é para já, por volta das quatro, o dia vai aquecer, não te preocupes, também não é por muito tempo. Tu mandas rapaz, onde queres o equipamento? Na serra, junto à Bandeira, pode ser? Eu própria levo. Para dois, dizes tu? Sim, mas não é para ti, pequenina. Logo vi. Até logo então. Um beijo!. Um beijo.
Uma asa? Pergunta Gabriela, com os olhos cheios de perguntas e de medos…
É surpresa. Agora vamos comer qualquer coisa. Vamos ao pão quente, estou gelado.
De corpos dados, foram, em silêncios desenhados no sorriso…

2.10.04

pedido de desculpas

Devo uma explicação pela (im)brevidade da pausa. Duas razões na origem. Uma primeira tem dedo familiar, da mana, (essa menina que aqui e ali comenta com o nome de nani). Tive a infeliz ideia de lhe contar o final da história. Não quis. Achou uma brutalidade, o final, para o nosso Joaquim e por arrasto o de Gabriela( devo ter contado muitas histórias das mil e um noites à minha mana mais velha, porque pelos vistos não gosta de finais reais, memo que levados pelo acaso. Mas é o acaso que molda a realidade. Não há fuga possível.) Ou seja não gostou dos acasos que conjugaram toda a trama da história. Eu, mano, mais novo, pus-me a pensar. Por isso pedi pausa. Mas mano mais novo é irreverente. Eu sou, mesmo que fosse mano mais velho. O final vai-se manter. Até porque não conseguiria escrever outro, pois história que se preze nasce pelo fim. Esta não foge ao destino, não fosse ela um historia de destinos. Este tem nome e chama-se Gaspar.
Causa segunda. Decisão tardia. Quando me revesti com as personagens, o tempo foi-se (Ou não fosse uma história contada sem tempo. Homem prevenido, tinha previsto que seria história aos soluços. Assim será.) Os afazeres tem sido muitos e se é verdade que vou pintando no “aguarelas”, este só vai vivendo em mim. Tenho mil palavras cheias do Joaquim, Gabriela e Gaspar, só para mim, guardadas no Tempo.
Não prometo quando…
Mas prometo um fim
O meu...

27.8.04

pausa breve

História contada sem tempo, ao sabor do sentir vai fazer uma pequena pausa para que Gabriela e Joaquim se entendam, e me contem como deram destino ao olhar.
Por outras palavras, as personagens, fugiram-me porque o tempo, o dia a dia, desfocou a atenção para com elas. Tímidas esconderam-se para não se zangarem com a desatenção e o abandono do narrador.
Deixemos os dois saborearem-se, porque irão ter pouco tempo para o fazer...
( afinal, é uma história sem tempo que se conta...)

25.8.04

19

Adormecera com a cidade, a ouvi-la, desinquieto a revolver o dia e os olhos negros que lhe voavam em forma de mulher, não sentia atracção física, sentia cumplicidade, complemento e doçura, (prazer, dizemos nós que quase o sentimos também, só de olhar para Joaquim). Adormeceu sem sonhos, de vez só.
Passou o dia desligado dos movimentos, quase apático. Parecia estar a ouvir melodia interior, só dele. (Atentos aos gestos, vimos o Joaquim a pegar no telemóvel vezes, várias, hesitante, a recuar nos gestos e na intenção).
Saiu cedo. Até amanhã Sofia. Vai já senhor Engenheiro? Até amanhã Sofia. Provavelmente, amanhã venho só à tarde, já falei com a Teresa.
As horas que se seguiram na empresa foram de agitação, reunidas de emergência, alertadas por Sofia, todas as colaboradoras questionavam a saída intempestiva do amigo e companheiro, porque na verdade era assim que o sentiam, amigo, sempre disposto a puxar por elas, quando o desânimo pousava no olhar de cada uma. Era fechado, praticamente não falava dele, mas sabia de todas, uma por uma, as suas vidas. Vai deixar a empresa, dizia Marta, viram-lhe os olhos? Não, anda doente, afirmava Teresa, Outro dia espreitei-o, estava branco de cal, agarrado à cabeça! Está é cansado, farto das nossas fofoquices, dizia quase escondida na voz, Maria João, lembrada da última reunião em que Joaquim as deixou a falar sozinhas por terem descambado em ciumeiras tolas e protagonismos exacerbados, conforme vieram a reconhecer mais tarde entre elas. Ficaram de esperar até ao dia seguinte, sentiam que chegara a hora de serem elas a animá-lo.

Joaquim estava na verdade estranho, sentia-se dependente, não sabia muito bem de quê. Apetecia-lhe fazer mil coisas ao mesmo tempo, mas sentia-se vazio, faltava-lhe a sombra. Sim? Gabriela? Siiiim, Joaquim, olá, estava a ligar-te…Olha pequenina, hoje há noite no Centro de Artes e Espectáculos na Figueira, há um concerto de Jazz, posso ir buscar-te? Jazz? Joaquim corou, fora indelicado, não fazia ideia alguma se Gabriela gostava ou não daquelas sonoridades. Que raio de feitio, pensou, Podemos ir a outro sitio, se quiseres, na verdade gostava de sentir a tua companhia…A que horas? Teve vontade de soltar um, agora, impulso travado a tempo que apenas se soltou pelos olhos, A que horas acabam as aulas? Tinha retomado o controlo da situação, Hoje não tenho, mentiu Gabriela, Jantamos então? Retorquiu com ansiedade e palpitações. Siiiim, apanha-me no Gira às sete e meia, pode ser? Joaquim estava nas nuvens, não sabia o que sentia, se bem, se mal, estava diferente. No ouvir ficava o prazer em eco do Siiiiiim, prolongado que só Gabriela sabia cantar. Sim, filhota, apanho-te ás sete. Ele não se apercebeu, ela não emendou, ganharam meia hora os dois!

23.8.04

18

3. Mistura de amarelos, castanho-outono e reflexos de vermelho-sol.

Há mistérios que não se explicam, sentires que não se escrevem, odores que não se desenham. Nem Joaquim, nem Gabriela conseguiam precisar como se encontravam a tomar um café, frente à Escola Secundária Infanta Dona Maria em Coimbra. Por onde andaram, depois de terem esbarrado com as recordações de cada um? Como preencheram o tempo que os levou de Entre Campos, a Santa Apolónia e desta a Coimbra? Como era possível ter encurtado o tempo à sensação do instante, quando percorreram espaço do tamanho de muitas horas? Não estavam a testar nenhuma teoria quântica, física, ou temporal, mas a sensação que os invadia em dúvida, é que tinham atravessado uma porta do Tempo, onde as suas vidas tinham ficado em suspenso. Parecia que tinham apagado os vinte anos que os separaram à mediada que os relatavam e ali estavam a conversar com uma intimidade estonteante, sem segredos, só entusiasmo.
Despediram-se sem promessas, estavam embriagados com a leveza que sentiam, queriam estar sós para saborearem o tempo que lhes fugia da memória e lhes aquecia o corpo e o sonhar…

20.8.04

17

Chegou a altura de uma pequena pausa, na história que vai desenrolando as vidas de Gabriela, Joaquim e Gaspar. O que se contar a seguir influenciará em definitivo os trilhos que seguem as personagens. Sabemos, ou adivinhamos que Joaquim é homem reservado, não tem vagares nem vontades de travar conhecimentos, o que encaminharia a história da visita à exposição do Mestre, a ser uma mera visita que Joaquim levaria nos olhos até Coimbra. Gabriela, entrou meio escondida pelo chapéu-de-chuva, apenas ficou no ouvido do Joaquim o timbre jovem mas altivo, Vim de Coimbra.
Gaspar, descansou férias na mesma praia que Gabriela. Afastado, é certo, mas em noite de estrelas, escrevera papel, que o vento levou em forma de destino, ao olhar de Gabriela.
Quando se cruzam viveres, desta forma casuística, não há graus de liberdade suficientemente desconexos que não obriguem o nascer de um instante, o que fazem desse momento, as personagens, já é um problema só delas.

Deixemos o instante acontecer, porque o tempo que cada traço demorou a redesenhar-se nos olhos de Joaquim, não foi suficiente para evitar o encontro. Gabriela não conseguia desunir-se do desenho que tinha diante. Há poemas que não se escrevem, desenham-se, depois, com sensibilidade, ou ilusão descrevem-se com emoção. Este que Gabriela e Joaquim viam, fixos, que os transformava, é quase paixão. É linha única, de homem, talvez rapaz, que brinca, que joga. A linha é precisa que o desenhador não é qualquer, (por isso eles que o vêem, imaginam que o que se joga, não é só brincadeira, é coisas outras, mais profundas, só dele, que sentiu). Dentro da forma, a dar-lhe cor e sorriso, no mesmo corpo, nas mesmas linhas, está mulher, talvez menina. O poema, não está na linha, está na sombra, suave e colorida do abraço da mulher.
Lindo não acha? Questionou Gabriela sem se voltar. Joaquim quase não ouvia, porque estava na verdade ausente. Não conhecia La raqueta Japonesa, estava a perguntar-se como era possível, nunca ter olhado aquele desenho da fase jovem do Mestre. Ao eco do lindo, sublinhava, em surdina interior, Belo. A harmonia comovia-o, fosse ela obra da natureza ou da mesma, mas por mão de homem, e estava a olhar para a mais perfeita harmonia que um traço desenhado poderia transmitir (questionava-se vezes sem conta, o nosso Joaquim, nas suas corridas junto ao Rio, até que ponto a intervenção do homem seria ou não Natural. Não gostava muito do conceito artificial, pois considerava-se, ele próprio, produto da natureza. Só quando, em ambientes mais agressivos que uma deleitosa corrida emoldurada de verdes, assistia a barbaridades humanóides, se convencia que algo de errado havia, na relação da sua espécie com o meio que o abraçava de prazeres).
Não acha? Não tinha ainda terminado a interrogativa e em gesto de fazer balançar o cabelo negro em roda de saia de bailarina, levou, inocente, perfume que fixou a atenção Joaquim, no som e na imagem. Extraordinariamente mais bela, porque em primeiro plano, estavam uns olhos negros, que fumegavam brilho, em segundo o quadro, e em terceiro, porque só o vira depois, reflexo de Gaspar no vidro do desenho, em sorriso escondido.
No momento que ia libertara resposta, outra entrou-lhe em tons de dúvida, Doutor!? Estava habituado a chamarem-lhe Doutor, nos tempos de estudante, que quase já esquecera e na sua vida profissional, pois desempenhava funções de gestão, cargo normalmente associado a doutores, mas comummente exercido por engenheiros, por isso largou um receoso, Sim?
É o menino Quim , não é ?
Era de mais, que raio de rapariga era aquela, quase miúda, aos olhos de Joaquim, a chamar-lhe de menino? e Quim? Menino Quim? Olhou-a em angústia. Que olhos negros lindos, pensou, para sem saber porquê, relembrar desabafo da Mila, contabilista da empresa, (podemos aparecer nuas, que o senhor engenheiro nem dá por nós, mas se estamos com algum problema, é o primeiro a perguntar o que temos. Olhe senhor engenheiro, gostamos que nos diga, o penteado fica-lhe bem, ou essa saia fica-lhe a matar, que diabo senhor engenheiro, acorde para a vida!). Desculpe, mas não estou a ver de onde nos conhecemos. Não vivia, em Coimbra, no Quebra-costas? Sim, em estudante, sim. Olho-a. Os olhos negros, sim conhecia aqueles olhos, noutro corpo, sim, de menina, sim, de mão dada na saia da dona Isaura, lavadeira de suas roupas. Gabi? Sim senhor Doutor, sou a Gabi.

E o instante, este instante, porque haverá outros, deu-se. Tinha acontecido, começado, discreto, difuso há mais de vinte anos. Subtilezas do existir que ninguém prestou atenção, mas que ficaram guardadas nas memórias dos dois, e que emergiram ao entrelaçar de olhares Quantos acasos, se deram no consumo do Tempo, desde o desenhar do quadro, ainda os dois não existiam no ver de ninguém, que deu a Gabriela o tempo que não era para ela; ao acto de decidir organizar a dita exposição; ao Joaquim ler em jornal, que dia último para a exposição, era este que viviam; ao Gabriela, ter decidido conhecer o autor do Começar; quantos momentos dispersos, desconexos, aconteceram para que o instante se desse?

17.8.04

16

Entre o conforto do táxi e o envolver-se na multidão, optou por seguir-se nos passos e deixar-se ir com o movimento, mimetisando-se nos cheiros, nos olhares, nas vidas de todos os que com ele se embalavam nos subterrâneos da Cidade Grande.
Movimentou-se na multidão, em pedaço dela. Tinha tempo…
Inventou uma história para cada uma das vidas que se isolavam do olhar e o escondiam no chão que se orientava em carris infindos, em movimentos rápidos como quem transporta destinos.
Sentiu-se desconfortado com a frieza do Ver de cada um e não resistiu em vasculhar imagens de outros tempos, de outras paragens, de outras emoções e calhou-lhe na sorte a recordação de uma menina de sorriso atrevido, em terras de Africa que o fazia corar com o olhar e deixou-se navegar. Tinha tempo…
Quando voltou à multidão, a saída estava algures entretida com os passos apressados de outros, mas não os seus. Saiu a correr em paragem próxima e correu desesperado para um táxi. Olhou relógio minuto a minuto, transpirando cada segundo que lhe corria nas veias. Estava quase a fechar a exposição

Gabriela estava extasiada, tinha-se perdido nas cores e nas linhas desenhadas em continuo. Percorrera todas as linhas, como que a imitar o traço do Mestre. Também ela gostava de deixar deslizar a mão e o lápis na textura rugosa do papel, por isso olhava como aprendiz, ávida de saber. Perdera-se nas cores e nas horas. O metro nunca mais chegava, sentia-se a empurrar a carruagem e em simultâneo a puxar o tempo, para que ele não lhe fugisse.

Chovia, saiu do metro de chapéu baixo a proteger-se, ia em pressa, encurvada para diante, a furar o vento…

Guarde o troco, agradecia recibo, muito boa tarde e obrigado. Descera devagar, gostava da chuva, de senti-la. Fechara os olhos e virado para os cinzentos, respirava como que sorvesse o mundo. Olhou e viu silhuetas, uma, a fechar a porta, outra em corrida, escondida em chapéu-de-chuva que se vergava. Apressou-se.

Desculpe, não vai fechar já pois não? Meus filhos, disse sem se voltar, com sorriso escondido, porque de costas, apercebendo-se que atrás de si se interrogavam, ele e ela, está na minha hora, Mas vim de Coimbra para ver o Mestre, rogou em voz trémula, Gabriela, que subitamente sentiu arrepio de frio. Soara-lhe bem a entoação, não de súplica, mas a forma como a palavra Mestre encheu a boca antes de ouvida. Entrem meus filhos, não tenho pressa, estava a ver que não vinham,… hoje,… visitantes ( disse-o, com pausas, quase hesitações, mas de sorriso, branco de profundo brilho no olhar) . Joaquim calou-se, era para sublinhar, Sim também eu vim de Coimbra, Aveiro para ser preciso, mas vinha sempre de Coimbra, pois era lá que dormia. Acrescentou, Ficamos muito gratos pela sua boa vontade. Agradeceu pelos dois, se estivesse atento, teria reparado que fora indelicado para Gabriela, que não gostava que falassem por ela. Pedia, só um favor, indicava-me a casa de banho, senhor..., senhor, Gaspar, lera a placa de funcionário, que em letras, dourado-gasto, se penduravam em placa discreta, Preciso de me limpar da chuva, Com certeza meu filho, com certeza, segunda porta à esquerda, Obrigado senhor Gaspar. A ida à casa de banho tinha dois objectivos, limpar efectivamente a água que lhe escorria, e permitir que a visitante se adiantasse no olhar. Não gostava de ver uma exposição em paralelo com outros olhos, ficava inibido e não fruía em plenitude o quadro que olhava. Cinco minutos depois sentia-se pronto para a degustação do seu Mestre preferido.

16.8.04

15

Pensou que seria mais fácil agarraras suas decisões. O trabalho de secretaria na Clínica, fazia-se bem, dava para ir estudando nas horas mortas, mas criar rotinas para as aulas à noite foi difícil. Aborrecia-se, o que lhe provocava um sono incontrolável. Vezes, fora literalmente acordada ou pelos colegas ou pela própria professora. O segundo período fora o pior de todos. Sempre gostou do Inverno, porque o vivia em casa, mas andar na rua o dia todo, e em especial no frio do escuro, tornava-a melancólica, e uma necessidade maior de companhia. Tinha terminado com o companheiro no verão último, mas sentia, sobretudo nos dias sombrios, a falta de um carinho, de se enroscar em corpo quente que a acariciasse ao som da chuva. Não era a relação física que lhe trazia a nostalgia do amor, era o próprio amor, o carinho, as longas conversas sobre o futuro, os projectos, e o abraço, gostava de se sentir abraçada, sentia-se confiante, sem medos, envolta num abraço, acompanhado de beijos suaves no pescoço e em sussurros atrás das orelhas. Tinha necessidade de fazer parte inteira da vida de alguém.
Pediu o dia na Clínica, queria muito ir ver uma exposição de Almada Negreiros, em Lisboa, que encerrava no dia seguinte, só lhe deram hipótese de trocar como a sua própria folga, não hesitou. Tinha uma vaga ideia do Mestre, como escritor, sempre que pensava nele soltavam-se um Morra Dantas, morra pim. Sabia-o mestre de desenho, cores e de coisas outras, mas só tinha lido na escola, o Manifesto, ainda tentou ler a Cena do ódio, mas ficara-se na Alma do Borgias a penar. Falavam-lhe tanto do Mestre, que ia aproveitar, dava um pulo na Gare Marítima de Alcantra e na de Rocha do Conde de Óbidos, para ver os frescos, (recordava-se de ver em poster num quarto de um estudante no Quebra Costas, quando, junto com a mãe fazia a entrega dos engomados, e de ficar à espreita, fixada nos malabaristas. Recordava-se dos malabaristas, e queria muito vê-los), um salto à Fnac, para ler um pouco de poesia, talvez até a cena do Ódio ou outro poema do artista, corria até à Gulbenkian para ver o Começar, e ao fim da tarde fugia até ao palácio de Galveias, onde decorria a exposição, se tivesse tempo iria ainda à cidade universitária, curiosamente, pensava, enquanto traçava o trajecto, nunca tivera curiosidade de em Coimbra dar uma saltada à faculdade de matemática, onde os frescos do Mestre se escondiam na modéstia da divulgação da sua existência, iria em dia próximo, se ficasse entusiasmada com a visita de amanhã, decidiu. Era um dia em cheio, como há muito imaginara, o pior era a chuva, mas estava decidida como sempre ( nós sabemos, não temos duvida), e ainda teria tempo de apanhar o Intercidades para Coimbra, com tempo para ir ás aulas.

Sofia, hoje ao final da manhã, vou a Lisboa. Não deu justificação, isso queria dizer, não incomodar, nada de telemóveis, quando assim era ia por vontade própria rever a sua Cidade. Na verdade Joaquim tinha uma paixão por Mestre Almada, e andava distraído, lera em jornal que a exposição encerrava, naquele dia, e sendo desenhos da fase espanhola, tinha curiosidade acrescida, porque era a fase que menos conhecia. Marque-me comboio de ida e volta, ida, o próximo, volta ás dezanove, De comboio? Vai de comboio, senhor engenheiro? Sim Sofia, se fizer favor. Andava cansado, e ultimamente dava para se ausentar enquanto conduzia, pensava que era o embalar da chuva e do pára-brisas, mas a verdade é que acordava em sobressalto no meio da estrada e tinha respirado vários sustos. Ainda ontem, recordava, tinha percebido que não chegara a sua hora. Despertara da sua ausência, com apito estridente de um enorme camião que se colocara à frente para pega de Vida, mas um reflexo de sobrevivência dizia-lhe que não chegara a hora. Chegado a casa, aconchegado em folha branca do seu caderno, escrevera: Hoje vi a morte, numa tempestade de reflexos. O que nos separa da Vida e da Morte é uma ínfima fracção de destino a que só damos valor no momento em que o turbilhão da existência nos foge do olhar. Renascemos todos os dias a cada fracção que o destino nos concede. Somos um ponto de um caminho que julgamos dirigir, mas que se constrói em Jogo de dados. Hoje, desenho palavras porque os dados olharam para mim e eu sinto-me impotente e esmagado pela incerteza do Existir.
Tinha uma relação de serenidade com a morte, não a temia, sabia o quanto é frágil e imprevista a relação da vida com o individuo, estava preparado para ela, desde o momento, em que assistira no ver, a imagem de uma criança a chorar em convulsão, a morte de uma formiga que pisara. Esta imagem, este desenho de vida, tinha transformado a sua. Percebeu o quanto é efémera a vida quando olhada de forma isolada e individual, o quanto somos ínfimos, comparados com a grandeza do Universo. Imaginou-se ser minúsculo, como a formiga, sujeito ao acaso de uma pisadela de uma entidade infinitamente maior do que ele, e essa mesma individualidade, pisada por acaso outro, por ser, infinitamente maior que o outro, sentiu-se átomo da existência, imaginou as células que vivem dentro de si, com ciclos de vida e morte, imaginou-se célula de ser maior, enfim um emaranhado de pensamentos que o colocaram frente à serenidade e à paz interior. Percebeu como era minúscula a sua individualidade, e sentiu-se grande por existir, mas sempre pronto para deixar de o ser.

13.8.04

14

A Doutora Ana ao telefone, quer atender?Mastigou silêncio, não estava com disposição para aturar desaforo de Secretário de Estado. Sofia, quando vou a Lisboa? Tem reunião no planeamento, dia 8, quarta, ás onze, senhor Engenheiro, Passe, então. Como está senhor engenheiro? Bem e a Aninhas? Isto está um inferno, Imagino, imagino, olhe, Aninhas transmita ao Dr. Antero que prefiro falar com ele sem ser pelo telefone (antecipara-se). Vou estar aí depois de amanhã, a partir das três, estou livre, Deixe ver senhor engenheiro, deixe ver, às 18 senhor engenheiro! Pode ser? Sim Aninhas, pode, fica marcado. Um beijo, Muito bom dia senhor Engenheiro. Sofia, marque para dia 8 ás 18 no ministério. Adivinhava o assunto e o chorrilho de justificações que sua excelência menor ia dar, por o ter feito perder horas a fio na elaboração do parecer. Não tinha paciência para estes lamentos. Podia ter marcado para o almoço, tornava tudo menos formal, mas o almoço era sagrado. Só mesmo quando não tinha hipótese nenhuma, aceitava almoçar e falar de trabalho e assuntos correlacionados. Era espaço só para ele, para se reflectir, já que o dia a dia lhe voava sem contemplações. Por outro lado fazia questão de alguma formalidade. Era uma defesa para o seu coração de manteiga. Conseguia transmitir uma frieza equilibrada, quando posto em cenário formal, noutros contextos, deixava que a ingenuidade e o voluntarismo tomassem conta do ambiente, e a conversa que iriam ter necessitava desse distanciamento emocional.
O dia chegara ao fim, agora sentia-se bem e sorria por ter ido à empresa. Não tinha que provar nada a ninguém, nem sequer prestar contas, mas fazia do trabalho um modo de vida que levava com entusiasmo. A empresa crescera com ele, de forma cautelosa. Tinha credibilidade no mercado, todos os anos aventuravam-se em novos desafios, em novas competências. Ousava, criava metodologias, fundia-se nos assuntos, analisava, propunha. Dava liberdade de acção, a todos os seus colaboradores, colaboradoras, para ser mais preciso, vinte e quatro, para não fugir à exactidão. Vezes sem conta perguntava-se o porquê de só trabalhar com mulheres, mas invariavelmente nas entrevistas, seduzia-se pelo arrojo, pelo acreditar que cada uma demonstrava. Detectava uma honestidade intelectual diferente entre eles e elas, e uma muito maior responsabilidade nos projectos que ficavam sobre a sua responsabilidade (sindroma maternal?). Apreciava quem o olhasse nos olhos, quem o avaliava, e elas eram incisivas nesse aspecto, havia uma espécie de orgulho altivo, feminino, de acreditar nas suas próprias capacidades, que os homens não demonstravam e isso era determinante e valia muito mais do que o curriculum. Eles, os poucos que questionavam, só chegados ao fim da entrevista, em gaguejos e em sons quase inaudiveis, perguntavam quanto é que seriam os honorários, menos ainda, se haveria contrato e qual a duração, elas não, queriam saber tudo, a Teresa chegou ao descaramento de pedir as contas da empresa nos últimos três anos, e não se deixou intimar com a negativa, provocadora, insistiu, desculpe senhor Engenheiro, mas dessa forma não posso tomar uma decisão. Lembra-se de ter levantado o sobrolho em olhar ameaçador, com quem diz, então menina, a decisão a tomar é minha ou sua? à qual ela respondeu com idêntico sobrolho levantado, em silêncios cúmplices, que se uniram em gargalhada espontânea de ambos, à qual se seguiu nova provocação, a que horas começo senhor engenheiro, Já começou, cara doutora, já começou! Nunca despedira ninguém, tinha orgulho na sua equipa. Dava igual importância a todos os clientes, fosse eles, empresa artesanal, ou de maior dimensão e influência. O que gostava mesmo era de pegar em coisas pequenas e dar-lhe dimensão. Todo ele brilhava, por fora, por dentro, quando um projecto novo, se lhe colava no querer.

Chegara a hora do dia que ele mais gostava, a sua hora, a hora em que se libertava de tudo e visitava o seu Rio em passo de corrida, por caminhos só dele. Patinhavam reflexões, ele, pensamentos, o rio, cores e imagens. Simbiose perfeita do seu existir.

12.8.04

13

A noite fora infernal, as dores de cabeça dilaceravam-lhe o estar. Não se sabia, não se sentia. Latejava em explosão interior, numa escuridão bamboleante, iludida em estrelas minúsculas bailarinas. Sentia-se no mar alto, sem apoio e sem equilíbrio. Estrepitava por dentro. Imaginava garra de águia-real a arrancar-lhe os olhos em alívio de dor. Tinha aprendido a saber suportar com resignação estes ataques furiosos dentro de si, tentando desligar-se do sentir, confiante que passaria o tormento. Visto e revisto, vezes sem conta, de urgência, sem urgência, lá o sossegavam, cefaleias. Isso é grave? enxaqueca, é comum, mais nas mulheres que nos homens, mas comum (pensou vezes várias a recorrer a especialista privado, vivia suficientemente desafogado para se permitir a esse pequeno luxo, mas irritava-o recorrer aos cuidados médicos privados, sentia, erradamente, acreditamos, que entrava num supermercado, infestado de aliciadores a compras não desejadas, e que agora lá vai mais uma análise, na clínica X, um exame que só o Dr, Y faz, e tem que cá vir de quinze em quinze dias, e muito provavelmente vai ter que ser operado, na clínica J pode ser já amanhã, o que acha? Eu nada, sou engenheiro, pensava. No serviço publico, Nacional, diz-se, e de saúde, sublinha-se, sentia-se mais um na fila a mendigar um pouco de atenção e cuidados, num mundo desatento e descuidado. Não, não gostava de Hospitais. Relembrava vezes sem conta, o pacato Dr. João Semana, de livro, escrito por médico é certo, que lera de épocas outras, a transpirar generosidade, e como soubemos já, em livro enorme que não lhe cabia nas pernas, e que acrescentamos agora, que nos esquecemos antes, pesado, mas cheio de gravuras lindas que lhe desviavam a atenção da leitura e o punham a imaginar histórias outras). Resignado à sua sorte, lá ia aguentando as crises, que ultimamente o apoquentavam, porque lhe tiravam horas de trabalho e de sossego. Mesmo assim enchia-se de voluntarismo e lá agarrava no carro e ia. Naquela noite fora diferente, pela intensidade, pela duração e resistência à medicação. Saiu de madrugada para apanhar o ar fresco, sentir a brisa da noite, e estrelas por estrelas sempre preferia as autênticas, que lhe recordavam fantasias. Sentou-se no banco do Jardim, inclinou a cabeça para o céu e esperou que o chão parasse de navegar. Marinheiro de água doce, enjoava na borrasca e foi o que lhe sucedeu, nauseou, até adormecer ao relento. Acordou com a música da rega automática. Oito da manhã. Sentia o corpo dorido, mas já se sentia no olhar, a pressão que lhe arrancara a alma tinha desanuviado, era com se depois de uma tempestade, caísse um nevoeiro, ténue a indicar novo dia, novas cores. Tomou o pequeno-almoço, tomou banho lento, com prazer de sentir a água fria a acordar-lhe o corpo. Não ia trabalhar, pensou. Teresa, aguenta-me as reuniões de coordenação sobre os Parques industriais, ás onze e a reunião com a Socintos, dá continuidade ao diagnóstico que estamos a fazer à empresa, sim de S. João da Madeira, as outras pede à Sofia para desmarcar, Trata-te, sim, Sim vou ver se descanso.
Joaquim sentiu remorsos, afinal já não tinha dores, estava cansado, muito é certo, mas sempre dava para ouvir, para observar o que se discutia. Sim Sofia? a Doutora Teresa já lhe deu o recado? Já sim senhor engenheiro, agora mesmo. Ia agora telefonar para o Dr. …, Não, não desmarque, dentro de uma hora e pouco estou aí. Diga à Doutora Teresa que vou, Mas senhor engenheiro, até já Sofia. Rumou até Aveiro.
Não havia duvidas que algo estava a mudar, há dezoito anos que, dia após dia, fazia com prazer as viagens Coimbra-Aveiro, local onde cresceu profissionalmente, e ao qual se dedicou de corpo e alma. A dedicação ainda existia, mas o corpo, esse começava a pedir mais calma e menores compromissos. Nunca ligou aos sinais, sempre os contrariou, numa relação meio masoquista com a dor, sabia ultrapassá-la e ignorá-la, mas as insónias constantes e as malditas dores de cabeça estavam a minar a sua vontade.

11.8.04

12

Andava ás voltas em burocracias. Sempre pensou que voltar a estudar, era apenas questão de vontade. Ilusão. A esticar em sentido contrário havia uma montanha de inutilidades a consumir tempo e entusiasmo. Equivalências para aqui, capitalizações para acolá, e porque a menina tem notas para medicina; mas não o que eu quero mesmo é aprender terapia da fala, sonho de menina; ó filha que desperdício; mas minha senhora, posso, ou não posso; pode sim minha senhora, aqui estão os impressos, não se esqueça das vacinas. (País estranho este que tinha quatro das maiores riquezas do Mundo conhecido, Mar, Floresta, Luz e Homens, e tratava tão mal cada uma. A riqueza de um pais devia ser avaliada pelas reservas dos seus recursos endógenos. Palavra exótica para uma leitura despreocupada, estamos a falar de Gabriela, o Joaquim é que anda com manias de mudar o mundo, Gabriela neste momento da história só quer completar o décimo segundo ano, para poder ser útil e dedicar-se à terapia da fala, não anda a arrastar modelos sociais e de desenvolvimento).
Estava determinada. Tinha todo o movimento de ir, no olhar e foi. Em Setembro próximo lá estaria no ensino nocturno. Sentia-se incompreensivelmente feliz. Dava conta de uma espécie de dor aguda, nunca se apercebera que a felicidade podia ser comparada a uma dor fina, de prazer. Há catorze anos que interrompera o secundário. Teve que ajudar a família paterna na fábrica, (depois da morte da mãe Isaura, por exaustão, acreditava Gabriela, aproximara-se do pai, que com o tempo espaçava a instabilidade com momentos mais calmos, que encorajavam a esperança), pequena empresa de cerâmica, familiar, de início, que foi crescendo à medida das encomendas, sem se cuidar que iam vendendo, a faiança abaixo do custo, entusiasmados com as quantidades, e letra atrás de letra lá se foi afundado a pequena oficina, que exigiu o empenho e suor de todos, mas barco com rombo é pesado, não navega, e nestas alturas o socorro anda distraído ou ajuda o lastro. O mestre do forno esquecera rotinas de segurança e em acidente estúpido acabou com a vida, dele e da fábrica. Moribunda que ia, não aguentou a tempestade, afundou esperanças e futuro de família inteira. Foi à luta, arregaçou as mangas em acto decidido, enrolou cabelo em rabo-de-cavalo e foi secretariar empresa de fornecedor, que estendeu a mão, era amigo de infâncias perdidas, do Pai, e tio, jogavam à bisca lambida todos os sábados e era camarada de caça, sem contar com os medos partilhados em terras da Guiné, escondidos no mato, a rezar, com promessas, a nossa Senhora de Fátima, que a peluda chegasse e os devolvesse inteiros de corpo, já que o espírito, esse ficara mutilado para sempre. Nunca mais foram os mesmos, só a amizade perdurou, e lá estava ele a proteger a retaguarda, de sentidos alerta, que os inimigos eram muitos e ameaçavam privações e miséria envergonhada.
Tempos de crise, são tempos de crise, os caulinos vinham de países outros, em pó, misturados, prontos a usar, mais baratos, os vidrados, meu Deus, nem é bom falar nisso, e também ele, sem acidente, mas de morte empresarial, lá pôs cadeado nos portões do armazém, à espera que a segurança Social, o Fisco e os bancos lhe tomassem conta do ganha-pão, que os sonhos, já tinham levado e não consta que tivessem valor contabilístico. Catorze anos de pausa na vida de Gabriela, não fossem as leituras, teria embrutecido, perdido a alegria e o sorriso.
Pegou em pequeno livro de poemas e foi passear, respirar o fim de tarde, ouvir a brisa por entre as folhas das árvores do Jardim Botânico. Era o seu refúgio. Ali passava parte dos seu dias sem afazeres, a ler e a desenhar futuro. A sensação de voo azul, ainda a fazia estremecer. Relembrava, verão, inchada de orgulho, das suas notas de liceu, a imaginar-se a viver. O tempo tinha parado, recomeçara-se naquela tarde de fim de férias. Pareceria viver um conto de fadas, até o seu Jardim tinha uma luz e uma sonoridade diferente, Via as setas luz, matizadas entre o branco e o translúcido, em vitrais de oração, a atravessar as copas frescas das árvores centenárias, num colorido mágico, sem sombras mas com penumbras, místicas, fantásticas, ao olhar. Fechava os olhos, embebia o fresco e sentia-se poema vivo. A fome, regressou-a a casa, recheada de destino!

9.8.04

11

Matizes em azuis-mar e outros que se perderam na paleta.

Joaquim estava nervoso, o dia correra-lhe estupidamente mal. Sentia-se cansado e impotente. Sabia que lidar com decisores políticos era tarefa que exigia tacto e paciência, e que as decisões eram na maioria das vezes irracionais do ponto de vista do bom senso. Sabia também, que havia intervenientes no processo de decisão que tinham um rasgo e uma visão muito superior aos outros pelo simples facto de terem convicções. Infelizmente estava cada vez mais desanimado, pois nos últimos anos, as coisas andavam a piorar. Sempre odiou populismos exacerbados, compreendia e aceitava que a politica tinha que ser embrulhada e mediatizada, mas não podia nem devia ser pirosa, esvaída de sentido e de objectivos que não a simples promoção individual ou de interesses. Havia uma clara e acentuada indiferença das elites para a causa pública. Acreditava que a Democracia só podia subsistir, enquanto essas elites intelectuais se dedicassem de corpo e alma aos desígnios do País. Acostumado a ser chamado a dar a sua opinião, fosse qual fosse a orientação politica do governante, empenhava-se a estudar os dossiers com todo o empenho e capacidade que tinha. Sabia-se com bom senso, e descobriu que tê-lo, era caminho andado para produzir uma linha de orientação estratégica com cabeça tronco e membros, com argumentos suficientes para defende-la. Tinha a vantagem, herdada de muitos olhares, de saber colocar-se no olhar de cada um e ver os assuntos nas várias perspectivas, por vários pontos de fuga. Andava desanimado com o País, não era daqueles que estava sempre a maldizer, a terra onde aprendera a ser do Mundo e a portugalidade de cada um, porque tinha orgulho em sê-lo, mas pressentia com cada vez maior convicção que a classe que orientava os seus destinos e desígnios, era refugo de refugo e isso incomodava-o e entristecia-o.
O Secretário de Estado chamara-o para dar parecer sobre uma decisão que pretendiam tomar sobre a funcionalidade de um gabinete estratégico e de planeamento económico. Dedicou-se à causa de corpo e alma, sem horas, horas a fio. Mobilizou a sua equipa. Fazia-o de forma voluntária, nunca aceitou qualquer remuneração por este tipo de requisição. Fazia-o por gosto, era uma forma discreta de servir a causa pública. Não gostava de holofotes nem de elogios públicos, o convite para participar numa decisão era suficiente para se sentir útil.
Orgulhoso com o trabalho produzido, olhava-se vaidoso, fizera-o com uma convicção fora do habitual.
Muito Bom dia, Senhor Engenheiro, sempre pontual, já estão todos à sua espera, sorriu Ana, Secretária de sua Excelência, Aninhas para os mais usuais naqueles espaços. Joaquim sorriu com vontade, sempre foi pontual, era uma provocação, ele e ela sabiam-no. Costumavam trocar confianças nas esperas. Joaquim tinha uma arte natural de ouvir, e sem saber como nem porquê era normal abrirem-se em confidências.
É tradição nossa chegar atrasado a reuniões de trabalho, mas estas eram especiais, todos vinham mais cedo, era a oportunidade para mostrar intimidades com sua Excelência, pedir um favor, ou simplesmente mostrar-se, sair e deixar o assessor na reunião (não queremos ser difamadores, e não nos atrevermos a pensar que neste caso ganham os dois, o que saiu, porque se mostrou e ganhou ajudas de custo para gastar em cd’s e dvd’s na Fnac, (há que poupar), e o assessor porque mostra competência para assumir o lugar do outro, quando o outro tomar o lugar a quem se mostrou, e ajudas de custo, que os filhos são muitos e a educação está cara. Não, não difamemos até porque o autor ainda não se precaveu em afirmar que qualquer semelhança com personagens da vida real é pura coincidência, não o disse. Não vá o acaso juntar-se à história, mais vale antever. Afirmemos então: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. O autor afirma-o e agradece ao Mestre Galileu Galilei todo o legado deixado). Entrou no Gabinete de Sua Excelência, depois de um café e uma água, trazidas, com o sorriso rasgado de Aninhas. Entrou na sala, com fumos vários, cigarrilhas cubanas, porto-riquenhas, açorianas, cigarros, muitos, com taxa e sem taxa, aos quais juntou sem afinidade o seu aromático e fiel, cachimbo. Era preciso ter pulmão, e não usar lentes de contacto!
A reunião tinha que ser rápida, faltava uma hora, para o discurso de sua Excelência, na III Conferência de Desenvolvimento Económico e Sustentável, promovido pela Confederação dos Empresários. Era preciso dar sinais claros que o governo estava atento à crise e que aprendendo com a iniciativa privada e dinâmica que o tecido empresarial tem dado mostras inequívocas, o governo decidiu criar um gabinete de apoio estratégico…
O Discurso estava feito, a decisão estava tomada, o facto de Joaquim ter trabalhado horas sem fim, num documento que demonstrava que essas competências já existiam, e que o novo gabinete não iria trazer mais valia nenhuma, não servia para nada, a não ser despesa, nem o leram, nem lhe deram oportunidade para o explicar, faltava uma hora para sua Excelência fazer o discurso de abertura, só se ouvia os parabéns de felicitações pela decisão tomada, que outros levaram anos a decidir, que sim, que era um instrumento importantíssimo para o desenvolvimento acelerado do país, que a oposição iria ficar calada e sorumbática, por em dois meses se ter tomado tão importante decisão, parabéns redobrados pela clarividência e pela oportunidade, tudo isto repetido com sua Excelência, vezes sem fim, vincando o acto com vénias e imagine-se com aplausos, tímidos primeiro e esfusiantes depois. Foi de mais, para o pacato Joaquim. Deixou-se ficar na sala, sentado a olhar o fumo, o dele, até ficar sozinho. Agarrou no telefone, mostrando conhecer rotinas e procedimentos, pediu à Aninhas, Traga-me por favor mais um cafezinho, uma água, umas folhas A4 e um envelope, Levo já Senhor Engenheiro, levo já, Obrigado.
Naquele momento sentiu uma paz infinita. Sentia-se livre porque não se sentia mercenário, nem dependente de favores, não o queriam ouvir, melhor para ele, escreveu:
Excelentíssimo Senhor Doutor,
Pinto-te macaco em cores de papagaio, Tu que te vestes de gravata e fato apropriado e te agachas em aplausos submissos e sorrisos cínicos, Tu que te vergas, Tu que te engasgas com Sua Excelência em salamaleques ordinários e medrosos, Agonias-me em cheiros de dejecto que se espalha no ar, em nuvem contaminada de cobardia. Tu que te levantas em aplausos à passagem de Sua Excelência Maior e reflectes vermelhos de vergonha, mas sem ela. Riu-me de Ti e Dele em gargalhada aberta, que se abafa nos aplausos, mas riu, e oiço-me, e mostro-me, e vês-me, e olhas, primata com cores de chimpanzé. Discursas de boca cheia, mas só tu te ouves, e sentes-te César, e vês-te no coliseu de polegar virado, armado em matador, Tu que decides, Tu que te envolves nas gravatas de alfaiate, e falas de povo, e falas para macacos que te aplaudem, Peço-te, humildemente, tem vergonha, cala-te, olha-te ao espelho e vê que esse papagaios não voam, Exige andorinhas, exige gaivotas, exige o que quiseres, mas macacos não, papagaios não que cheiram mal, cheiram a podre, e as palmas são patéticas e as palavras são iguais às tuas, Tem coragem, e envolve-te com quem te diz não, tem vergonha dos sim excelência, que são cínicos, e só tu não vês. Olha nos olhos e diz o que pensas, não te engasgues em compromissos que não sentes e não queres. Segue o teu caminho, porque se não é o teu, deixa a tarefa para quem o saiba, Autentico, sem fingimentos, sem fugas, mal ou bem, mas Verdadeiro.
Um abraço, amigo e franco, Quim
Dobrou a folha manuscrita e pediu à Doutora Ana que fizesse o favor de entregar a carta a sua Excelência, e muito bom dia, e até a um outro dia, beijinhos à KIKI (Filha que estava sempre nas bocas de Aninhas e que não escondia as suas tropelias em confissões repetidas, mas vaidosas, com se a asneira tivesse direito a aplausos)
Sentia pena do amigo, viveram intensamente a vida académica de Coimbra, lutaram juntos pela reposição das tradições na década de oitenta, tinham sido sonhadores juntos. Estava mudado, transformado em marioneta. Questionava-se, em angústia, o como era possível, o amigo, pessoa inteligente, que o era, deixar-se corromper intelectualmente ao ponto de se reflectir macaco, peão de decisões feitas sem sentido. O Mundo estava a mudar e Joaquim duvidava ser capaz de se adaptar. Estava triste. Cansado. Rumou até ao Estádio Nacional, vestiu o fato de treino que trazia sempre no carro e correu, até não se sentir.

8.8.04

10

Era tarefa que não gostava, tratar de roupa, engomar roupa para sermos mais precisos, mas querendo ser mesmo exactos, todo o envolvimento associado ao acto do lavar a roupa, deixava Gabriela indisposta de sentires. Angustias. Não lhe sabia razão. Talvez tempos difíceis em que a mãe lavava nas águas do Mondego, as roupas dos senhores doutores, estudantes é certo, mas já doutores em cidade que não aprendeu ainda a viver sem eles. Com o pai sempre ausente, a Mãe Isaura, sustentara a custo de varizes cáusticas e outros desgastes lampos, a subsistência e os estudos de Gabriela. Felizmente, filha única, coisa quase rara em meios que tinham na prol, garantias de ajuda em trabalhos vários. A mãe lavava roupa nas águas do bazófia. Agora não que os senhores doutores são mais finos, já vem de carro e mordomias outras. Sinais dos tempos. Mas ela adorava as idas ao Mondego, ao seu Rio e gostava de ajudar a mãe no pisa da roupa, no pendurar camisas, cuecas e lençóis, num jogo de colorido que lhe soltava o riso e a maravilhava. Mas o que gostava mesmo, era de subir de mão dada à saia da Mãe, o Quebra-costas, com as cestas de vime, primeiro e alguidares de plástico, depois e entregar as roupas aos rapazes, senhores doutores. Estavam sempre bem dispostos e elas eram sempre uma boa notícia, não conhecia nenhum que não a esperasse com ansiedade. Tempos de crise, em que a roupa era pouca e faltava sempre aos jovens que se queriam apinocar para uma noite de amores, porque para as aulas, o suor era sinal de muito estudo, de muito fumo, de muita concentração e noite a fio perdidas em sebentas com pouco sebo, ilusões de enganos, porque jovem esquece sempre que Mestre o já foi.
Ficamos perplexos, porque a imagem que temos de Gabriela, é de rapariga adulta, mas jovem, pela alegria e pela sensualidade ingénua que o seu corpo aparenta, mas o relato da hipótese da angústia do lavar de roupa, e as memórias confessadas de Gabriela, leva-nos, a recuar trinta a trinta e cinco anos (as lavadeiras ainda as há, mas os estudantes, como vimos já não tem a empatia de outros tempos e hoje a actividade é triste e descolorida), pelo que deduzimos que Gabriela andará por essa idade, mas esperemos outras confissões para afinar a idade (há aqui uma manifesta curiosidade em saber a idade e nome de cada um, que não somos indiferentes e gostamos de saber tudo das nossa personagens, para lhes avaliarmos a maturidade, certos bem se vê que a maturidade não se avalia por estes parâmetros, mas é um primeiro esboço).
Gabriela tirava a roupa da máquina, queria ter a roupa toda lavada e engomada, para fazer as malas. As férias terminaram. Não levava saudades, tirando a praia, as leituras e algumas refeições em restaurantes modestos, foram quinze dias de silêncios. Descansara, era esse o objectivo. Mas já tinha saudades dos colegas, dos amigos, do seu computador, da sua rotina, da sua cidade (parece o nosso Mestre Gaspar, a sua isto, a sua aquilo, afinal todos temos muitas coisas nossas).
Colocou a roupa no alguidar cor de vinho e foi até à varanda do apartamento alugado, valia pela vista do Mar, do alto da serra. Quase se avistava fim, pensava.
Maquinalmente, de molas presas no sorriso, colocou uma a uma, as peças de roupa. Sentou-se a respirar a noite e o mar que se passeavam no escuro.
Acordou cedo, dormira sem se lembrar. Era dia de partida. Ia para perto, de Figueira a Coimbra era um quase nada, mas gostava de chegar e iludir-se que ainda tinha uma tarde de férias. Apanhou a roupa já seca, apanhou peça por peça, decidiu adiar para Coimbra o passar a ferro-vapor a sua roupa. Na saia de ganga, ao dobrar, sentiu saliência junto ao bolso. Intrigada (e esquecida, dizemos nós que acompanhámos a acção), mete dedos finos e retira um emaçado de papel fino. Transformando os dedos em pinça, e o olhar em curiosidade, despega as pequenas e frágeis pontas do papel engelhado. Alisa-o e espanta-se. Revela-se papel escrito mas todo desbotado em azuis. O desfazer da tinta, tinha no entanto tomado forma de gaivota-azul. A imagem tocou-lhe todos os sentidos, era linda a gaivota, junto à asa, ou melhor à mancha que desenhava a asa, conseguia-se ler a custo pequena palavra, feliz. Aqueceu-se em bater de coração. Olhou o mar que se estendia em horizonte, dentro do seu ver, emocionado, e sentiu-se.
Sem saber explicar, sentiu-se crescer. Há momentos destes na vida de cada um que anda atento. Assistimos a um virar de página nas nossas vidas, uma porta aberta que fechou outra. Assim se experimentou Gabriela, marcando o instante, com um grande voo de alma. Era uma gaivota azul, à procura do seu Horizonte. Sabia, naquele momento que iria tomar uma decisão sobre si e sobre a sua vida. Afinal, tinham sido as melhores férias da sua vida.

7.8.04

9

Percorria as ruas que lhe inundavam a infância, a grande cidade, nome que Quim lhe dera em menino, antes de conhecer outras. Era grande, porque se sentia multidão nos passos que lhe dava. Mas o Chiado, as estreitas ruelas do Bairro Alto, a rua das tipografias, as livrarias, era a sua infância alfacinha, que ali estava em recordações de tempos idos. Joaquim lembrava-se dos momentos em que esperava o Pai que dava consultas em posto médico, a idosos e outros. Deambulava duas horas em fim do dia, pelas ruas, em vez de se dedicar aos trabalhos escolares, dentro do carro. Saía e entrava no seu Mundo a olhar. Fixava-se nos livros, nos alfarrabistas. Hábitos e costumes em imitação do Pai que coleccionava raridades livreiras. Hoje, no mesmo espaço, anos muitos depois, procurava livro para oferta. Era costume, seu oferecer livros, sobretudo ao Pai, tarefa difícil, como é fácil perceber quando se quer oferecer peça para colecção a coleccionador cheio de vício. A biblioteca ( atributo demasiado frio, para coleção tão acarinhada e adulada) era uma espécie de sonho, era o castelo no ar de seu Pai, pelo menos era esse o sonho que lhe conhecia. Olhava à distância com grande ternura, este devaneio paterno e sentia-se importante, quando, fruto dos seus passeios, dava novidade a tão grande conhecedor de alfarrábios e lhe dizia cheio de notícia nos olhos; o senhor Silva tem na montra a primeira edição das vindimas de Miguel Torga, ainda não tens pois não Papá?
Joaquim descobrira novidade, livro sobre Lisboa, era aquele. Para oferta? Sim, mas não embrulhe por favor. Não gostava de embrulhar livros, era como pôr um ser vivo dentro de um saco, sufocava por certo. Um livro tem personalidade, não é para ser embrulhado e laçarado. Ainda por cima, gostava de escrever dedicatória, habito também ele herdado, como costume era seu e dele, localizar e datar o local da leitura. Foi com estes pensares que se sentou no Nicola a escrever a dedicatória.
“Cresci a acompanhar a construção do castelo, do qual estas páginas são mais uma pedra do sonho de um homem.
O carácter de um homem está directamente ligado à construção do seu castelo. Olha-se o castelo e lá está o retracto de quem escolheu cada pedra do seu sonho.
Cada livro tem uma alegria, um sabor, um sentimento que nos molda, que nos movimenta os passos no caminho que traçamos. Não me imagino olhar cada uma das perdas do teu castelo sem me localizar, automaticamente, no local e no tempo em que esse sentimento, esse paladar andou ás voltas no teu olhar. Está lá todo o trajecto do teu olhar: Vila Artur de Paiva, tantos de tal…Vila Cabral, tantos de tal; Campo de Ourique, Coimbra, Vila Nova de Cacela, tantos de tal. É o trajecto, é o caminho, é o retracto.
Estas linhas pretendem ter um único objectivo: colocar com afectividade, amor e carinho mais uma pedra no teu castelo, na esperança de que segure a abóbada mais importante do teu sonho. Não é mais um livro sem lugar na prateleira, é mais um olhar do saber ver, do meu Pai. É para reflectir no quanto é importante não nos desfazermos do nosso olhar.
Lembras-te, como noite após noite, lá fomos lendo as Pupilas do Sr. Reitor num livro que não nos cabia nas pernas? Lembras-te certamente, da voz embargada de sentimento com que nos leste, conto após conto, os Bichos do TEU Miguel Torga?
É por tudo isso que te ofereço mais uma pedra para a abóbada mestra do teu castelo e que o risco, que o gatafunho, que o adultero, na tentativa de te pôr a (re)olhar o teu próprio caminho.
Escrito de uma só vez, para uma só pessoa,
Um beijo de parabéns.”
Lisboa, tantos de tal…, assina, fecha o livro e sorri. Vai gostar, pensa.
Bebe o café já frio. Sabia que o Pai, matutava desfazer-se do seu castelo, já não tinha paredes, nem espaço e a vida já lhe pesava os olhos. Joaquim pensava estar a oferecer-lhe a pedra angular do seu castelo.

6.8.04

8

O vento embutira o pedaço de asa, escrito, como pele segunda e Gabriela quase que o teve que despegar para o deixar de sentir. Amachucou-o em tamanho de bola, depois de rápido olhar, não fosse coisa outra, mais perigosa, ou suja de nojo, que uma simples folha leve de papel, como o sentir lhe indicava e o ver confirmava. Por momentos a sensação de reduzir em bola a pequena folha, foi de domínio, não que o pensamento a levasse por caminhos destituídos de compaixão, era instinto natural e sensação ténue de Poder, guardar fechado, apertado, em prisão de mão, pedaço branco que lhe voou feito lapa, na perna dorida de sol e praia. Já mais reflectida, colocou-o no bolso da saia de ganga, que lhe delineava o corpo, em formas de mulher (nada mais simples e eficaz para o retrato da imagem que se quer fazer sentir, no olhar de quem lê que definir a beleza das linhas que contornam o corpo que se passeia, de mão esquerda fechada e direita, de dedo gancho pendurado em dedo outro, mindinho, de quem também passeia mas não está ali, como escrever sem mais: formas de mulher). Mais pensada e reflectida, porque Gabriela tem intuição cívica e papel no chão, não é coisa que lhe agrade o olhar, por isso o guarda, para o lagar em local próprio, logo que o aviste. Já o mesmo não se pode dizer do Sr. Presidente de Câmara, ou melhor, do senhor Vereador, porque coisa de papeleiras, nas ruas não é assunto para o Sr. Presidente e pelos vistos , nem Vereador, nem director de serviços. Só o estagiário, não se cansa de emitir sucessivas notas de serviço, com localização e respectivo orçamento, que vê acumular na mesa da Sr.ª Dona, Alice, secretária do Sr. Vereador (donde, com alguma maledicência, percebemos que quem decide a importância das prioridades é a Dona Alice, desculpem a Sr.ª. Dona Alice, haja respeito), quando acompanha o seu director, nas reuniões de quinta-feira, criadas e mantidas religiosamente para fazer pontos de situação. Acredita, o Sr. engenheiro, estagiário compulsivo, que um dia será chamado a dar opinião sobre as ditas papeleiras, lindas de se ver, escolhidas com carinho, (nem demasiado caras, nem porcaria plastificada, apesar de se ter apaixonado por outras, mas essas, Deus meu, nem que fossem prioridades de sua Excelência Maior, desculpem, prioridades das prioridades da Sr.ª Dona Marta, secretária do Senhor Presidente, o seu a seu dono, que não estamos aqui para abocanhar ninguém), processo de concurso preparado ao pormenor e tudo o mais, só faltava mesmo, o bem dito despacho do Sr. Doutor Silveira, distinto Vereador do Ambiente e coisas mais (Ambiente estará sempre em primeiro lugar no enorme rolo de competências de sua Excelência, pois soa bem, é bem, mesmo que como já vimos as prioridades sejam outras e de outros).

5.8.04

7

Fazia refeições frugais, sobretudo à noite, costume que acentuava no estio. Fruta variada e mesmo que lhe dissessem que não combinava, que lhe fazia mal, não prescindia dos sabores aleitados de um queijo da serra. Degustava-o sem pão derretendo as pequenas colheres de néctar pastorício no palato, sem tempo. Gaspar tinha esse gosto. Nos frios do Inverno uma malga de leite bem quente migalhada de cereais, aconchegavam o sono e os sonhos .Era ele que adquiria os seus queijos, em ritual obrigatório nas suas visitas prolongadas na Serra, na sua Serra. Gostava de sentir os horizontes circulares, com princípio e fim em abraços de olhar e lá, nos céus límpidos e frescos, havia pequenos lugares de brisa gelada que tornava possível esse querer, onde se envolvia com o olhar em plena espiritualidade perdendo-se do tempo e do espaço, como que se estivesse a carregar as suas fontes de vida (nunca revelou e provavelmente é abuso deste contador, que interfere em demasia e não se limita à narração, mas a verdade é que desconfia que os pedacitos do néctar das ovelhas, frutados de saberes de outros mestres, saboreados, ás colheres, é vida concentrada que lhe alimenta o existir, em forma de elixir).
Já não ia à praia há uma semana, da varanda tinha paisagem, cheiro e cores suficientes para respirar o ambiente como se estivesse presente, apetecia-lhe sim, andar e resolveu-se. Vestiu agasalho ligeiro, que humidade de sal, enferruja ossadas e as suas ultimamente, apesar do sol e do verão, davam mostras de se quererem fazer sentir. Andar obrigava-as a calar, mas o objectivo era outro, era ver pessoas, senti-las no seu viver, conversas aqui, sons de acolá, gritos, discussões, risos e alegrias várias. O pulsar do ambiente que lhe envolvia o andar fotografava-lhe o viver das gentes que se formigavam ao redor, gentes sem nome, nem idade, mas suficientemente próximas, para as sentir como suas, como a serra, como a praia, como a cidade. Foi e misturou-se.
De longe ouvia o farol em apitos espaçados, não admirava a dor que sentia no corpo. A névoa ligeira dava as boas noites e tonalidades desfocadas, ao luar.
Andou de mãos atrás das costas. Fazia pequenas pausas para se girar sob o mundo que se movimentava sem ele. Sorria, sempre muito, em tons de aguarela, água-cor de suavidade extrema. Girava sobre si e via e sorria. Vezes, tinha vontade de se transformar em carrossel e girar, girar, até sentir desequilíbrio, mas idade de Mestre pede outros recatos, contentava-se em sentir-se centro de giração, umbigo do Mundo que os seus olhos alcançavam.
Acabada a vontade, procurou mesa, não que estivesse cansado, mas era momento de parar, tivera pensamento e quando acontecia tinha que parar e gatafunhar as letras que faziam o favor de se juntar em forma de sentir. Juntava pensamentos, era passatempo, tal como o era fazer saltitar seixos redondos e delgados no mar, no seu (temos que dar um desconto a Gaspar e esta mania que ele começa a demonstrar de ser tudo dele, a serra, a praia, a cidade, as gentes, já vimos serem dele, as ovelhas, não vimos, porque o narrador achou exagero e não contou como devia, agora também o Mar. Não julguem o Mestre e não liguem ao narrador).
Descoberta mesa, na esplanada, sentou-se, com boas noites às cercanias, que indiferente, não se deu a vontades de sorrir, ele sim, por debaixo do seu bigode branco-branco. Boa-noite José (sabia-lhe nome), o costume, tu sabes, não demasiado quente, sim tília por favor, olha, José, trás um papelito, um guardanapo de papel serve e caneta, obrigado José.
Esperou quase ausente. Aqui está o seu cházinho, senhor Gaspar e os seus guardanapos e cá está a sua canetinha, senhor Gaspar, dois euros. Para pagar amanhã, não é? Sim José, esqueço-me sempre do raio da carteira, não há meio de me habituar, Deus te pague José. Amanhã, senhor Gaspar, Amanhã!
Olhou caneta, como pintor afaga os seus pincéis e gravou em papel semi-transparente, semi-cor de mesa, neste caso verde, que não interessa para nada.
Escreveu, "Procura a melhor forma de resistires à tentação de veres apenas com os teus olhos, para não caíres na ilusão de te sentires feliz em vez de o seres…"
Releu, deixou ficar, parecia-lhe bem, não propriamente a construção da frase, nunca ligou a purezas gramaticais. Sabia que quando se punha a pintar, também vezes sem conta não olhava para as proporções das formas, deformava-as com intenção e intimidade.
Estava neste auto convencimento, quando, brisa mais forte lhe levou papel, aquele e todos os outros que José tinha trazido. Leve, mesmo escrito com palavras do Mestre, fez-se gaivota e colou-se nas pernas de rapariga de dedo dado, em espécie de gancho, que passeava com o companheiro, que em vez de mão lhe dava a míngua de um dedo, o mais pequeno que tinha.
Gabriela, em gesto reflexo, apanhou o papel que se colou à pele…
Gaspar encolheu os ombros, sorriu e resignou-se em não levar os pensamentos consigo. Estes não se iriam juntar ao seu caderno de argolas, em letras desenhadas com caneta de aparo. Fugiram juntos com o papel-gaivota.

3.8.04

6

Agarrou livro, sem o ler, olhava o vazio, revia as últimas horas, os desencontros que tivera com alguns dos empresários que levara e as discussões havidas, pela postura tomada por uns, poucos, na forma de olharem Africa. Pensou na relutância que tinha em dar nome de País aos lugares africanos, via e sentia Africa poeticamente como um todo. Arrepiava-se ao imaginar costumes nómadas, a mostrarem passaportes, entristecia-se, apesar de querer ardentemente compreender, o desentendimento tribal que vulcanizava em sangue toda o continente, fonte de vida e de riqueza para o Mundo. Paradoxos que lhe tiravam o sono e o encobriam de melancolia e resignação. Queria sair de si, da sua pele e deixar de sentir. Queria ter o poder de se ausentar, de se murar do ver.
Não pediu o despertar, sabia-se. Não iria dormir, estava envolto numa inquietude semi-nostálgica, por isso mais valia trabalhar. Havia relatórios a fazer, avaliar resultados, listar prioridades de afazeres, assim que chegassem, para manter vivo o interesse dos contactos estabelecidos. Cumprir promessas. Criar confiança, através da preocupação, da cordialidade e da presença. Mecânico telefonou para a sua colaboradora e orientou pormenores que sabia já estarem executados, enaltecendo atitudes, antes de um boa-noite, parabéns, correu tudo muito bem, obrigado por tudo. Teresa merecia estes pequenos nadas de auto-confiança, estava a dar os primeiros passos nestas lides, empenhava-se com todo o voluntarismo de quem tem ambição de fazer bem. Sabia que pequenos gestos que confirmavam decisões acertadas, iriam sedimentar auto-suficiência na acção e esse era o rumo que gostava de dar aos seus colaboradores. Conseguia envolvimento, porque todos acreditavam neles próprios. Eram equipa e isso dava-lhe uma grande tranquilidade, porque sentia que desse modo poderia fazer sempre mais, dar mais um passo. Quando algo corria mal, era o primeiro a dizer que teria feito o mesmo e que não se desculpava de não ter previsto o erro. Criava cumplicidades e fidelidades. Sentia-se bem, quando olhava a sua equipa e sabia que contava com todos eles de igual modo.

O autocarro desencobria a pobreza que ia ficando para trás à velocidade de uma janela, que corria em sentido contrário. Na noite do novo dia, estaria em casa. Já só pensava na quietude do seu refúgio. Mecanizou-se e deixou-se ir. Transformou-se em passageiro, com nº de bilhete, burocracias e de coisas que não engavetava no sentir.

2.8.04

5

Relaxado, por momentos, pelas águas da piscina, sentou-se no anoitecer. Esquecido de si, retirou bloco de apontamentos da pasta deformada que o acompanha (oferta de mãe, empolada de orgulho, depois das vestes negras rasgadas em embriaguês de ritual, de tradições estudantis) em viagens e afazeres vários (verdadeiro espaço de surpresas desarrumadas e desajustadas de utilidade. Traço de personalidade anárquica, que lhe dá olhares de indiferença da vida, pelo menos daquela que transforma tudo em objecto, em utensílio). Abre-o lento, olha-o, (des)sorrindo, junta lápis-carvão e esboça mãe-filho, entre capim, esfuma-o com os dedos, imagina-lhe cor. Não tem lápis outros, fica-se com a imaginação e o sentir que teve, ao ver derreter-se em evaporação, a imagem de mãe caminhante no meio dos castanhos-amarelos, junto à picada de terra-sangue por onde andou na tarde escaldante, a esquecer memórias.
Lembrou, sim noticia que se escreve e espalha Mundo, em surdina-medo e que o agonia, sobre tráfego de órgãos, de meninos, que nascem já com destino, o de serem só um rim, um coração, ou outro pedaço de carne qualquer. Olha o desenho, o esboço e esboça palavras que lhe saem do sentir, escreve de lágrima, escreve de raiva. Desenho e palavra, em esboço do sentir.
Espreitamos e lemos: Criança negra, jogada fora, em picada escura, de pó, cega, perdida. Sem lágrima, pedaços de corpo, morto, para outro, esquecida, sem dó. Dor ao longe, fora de vista. Migalha de vida, criança negra, caída.
Fecha o caderno de apontamentos, já tem cores e titulo para o seu quadro, Migalhas de Vida.
Não lhe apetece sair, nem comer, refresca-se com tragos contínuos em água tónica e sem passar pelo grupo de empresários que coordena vai deitar-se. Do quarto, ao telefone, fala com a sua colaboradora, dá-lhe indicações sobre a partida, e deita-se. Sem saber razão, mistura lágrima com suor.

1.8.04

4

Ele, inquietou-se com a repentina ausência de Gabriela. Irrequieto, virou o olhar para um Lavrador, cor-trigo de olhos meigos que não tirava a bola do querer. Reprimia, de focinho baixo, o impulso de saltar, de correr para bola branca que num vaivém louco, em instantes já passados, acompanhava o movimento da sua cauda. Ladrou, não o cão, ele. Espicaçava o quatro patas que só pretendia brincadeira. Dirigiu-se agressivo a imitar rosnar com o cio. Enquanto não afastou o cão não descansou. Parecia menino mimado, mal-educado a chamar a atenção dos pais. Passado o momento, com o cão junto aos donos, que não deram conta da provocação, aproximou-se de Gabriela, tirou-lhe o livro e deitou-se por cima, em posição de esmagamento, sem carinho, sem ternura, violenta.
Afastou-o com delicadeza, sentou-se a olhar o mar, a imaginar silêncios. Os momentos de riso embriagado passaram. Sentia-se sufocada de tristeza.
Vou dar um mergulho, disse. Esbelta, a refazer o "carrapito", que lhe empinava o cabelo negro e lhe libertava o pescoço, em imagem egípcia, caminhou quase sem passos na areia e fundiu-se no azul-verde-frio. Ele esperou e depois correu, de passos pesados e sonoros, em grito selvagem, violou as águas em mergulho de espuma, sem ouvir os gemidos das águas que se vontades tivessem, o expulsavam com desprezo e nojo, em onda gigante, de raiva.

Sentado, a limpar o suor quente húmido que se colava à pele, seguia as nuvens de fumo do cachimbo, num fim de tarde junto à piscina do hotel Polana. Mais uma noite e apanharia o avião para Lisboa. Respirava os ares de Maputo, respirava uma nostalgia feliz, na cidade das acácias rubras que lhe lembrava liberdade e sentires únicos. Joaquim fundia-se no aroma do tabaco que se escondia em cinzentos no ar quente. Falava sem emitir sons. Falava-se. Estava cansado, o vaivém de reuniões infindáveis num país que anda devagar, que não acompanha os ritmos do ocidente, produziam um desgaste a que não estava habituado. Faltava-lhe a serenidade para perceber que o intruso era ele, que a ocidentalidade dos costumes, só faziam sentido, no ocidente. Não ali, em terras de África. Ali as cores são vivas. O vermelho é sangue, o amarelo é gira-sol, o rubro é acácia. Ali a verdade é outra e isso sempre foi difícil de entender.
Aguardava o fim do sol, para dar um último mergulho, estava com o Ver distante, com sabores a angústia. Queria ficar ali, naquela cidade, naquele tempo, quase parado. Era ali que ele sentia poder ser útil, poder ser-se útil a ele próprio. Era como se houvesse um pacto, entre ele e a terra. Ele dava-se todo e ela, dava-lhe as cores que procurava, os sentires que desejara. Ali sentia-se criança, sentia-se puro, ali a vida fazia sentido, saía-lhe pelos poros em gotas de sal, era como se o mar saísse de dentro dele e ele fosse vela de barco à procura dos ventos calmos.
Mergulhou e deixou-se deslizar de fresco.
Quem escreve, distraiu-se, não apresentou a personagem, talvez por a conhecer melhor, talvez por já lhe ter dado vida e sentido, noutras fantasias, não escritas, sonhadas. Joaquim, ronda os quarenta e três anos, cabelos negros, pincelados a prata nos pensamentos e não fala sem desenhar. É um tique que o acompanhará na vida. O desenho, escreve-lhe os pensamentos. Não passa sem eles. Procura o equilíbrio. Pensa em demasia, e esquecesse da vida. Homem de negócios claros, procura consensos, aconselha, indica, orienta. Gostam de o ouvir antes de darem um passo. Ele gosta, sente-se útil, afastando assim o seu complexo de não saber o que veio fazer ao Mundo. Procura desesperadamente o seu desígnio. Sofre com a própria alegria, porque quando sorri livre, sente que não merece. Vamos ter que cuidar bem desta personagem.

29.7.04

3

Gaspar, (Mestre ficará para outras intimidades, mais familiares. Ele responderá ao chamamento, com um, meu filho, ou minha filha, porque sabe que filho é sempre aprendiz, mesmo de sangues outros) sereno, a olhar a areia, dá passos de procura. Anda lento, ao ritmo dos sons que o rodeiam. Segue a respiração. Pausas continuas. São os seus passos. Parou e agarrou, pedra, seixo de muitas viagens. Afagou-o, limpou-o de pequenas migalhas de areia, mediu-lhe o peso e espessura. Colocou-o entre o polegar e o indicador destro (é só um pormenor, que poderá ser importante, não que os destros sejam diferentes, mas admito que exista uma maior agilidade mental. Gaspar, revelará que gosta de pensar fora do quadrado e do quadro…), olhou o céu encoberto, que devolvia tonalidades cinzentas, de dia quente, ao mar que se deixava ver. Respirou-o e em gesto de golfista, em linhas curvas, perfeitas, lançou seixo, em movimento que merecia desenho. Só ele sabe, quantas vezes saltitou no mar, pedra devolvida (tenho alguma simpatia pelo número sete, assim sabe ele e nós agora que a pedra rosa-castanho, saltitou sete vezes andes de mergulho nas águas que se reflectiam céu cinzento-leve).
Olhamos personagem desenquadrada na idade, gesto assim, faz menino, junto ao rio, ou rapaz junto ao mar, que lançam sonhos em pedras que saltitam vagabundas. Vezes, gestos solitários que pensam amores ou futuros, outras, em competição de sangue, mas leal entre amigos que pretendem pequenos instantes de glória, reconhecimento e respeito. Consideramos desenquadrada a atitude, o entusiasmo, porque não lhe temos intimidade, nem saber. O Mestre saberá mostrar-se por dentro o suficiente para lhe espreitarmos os sonhos e os gestos.
Sorriu, quando perdeu de vista a sua pedra. Sorriso só dele, escondido no seu bigode branco.
Sentiu dever cumprido, como se lançar um seixo no mar, que saltita e se afunda, é dever de cidadania, mas o sorriso, assim o determinava. Estava na hora de voltar a casa. Foi, depois de massajar o cabelo branco-velho, com agua a cheirar a mar. Seguiu lento sem se voltar.
A paisagem modificou-se, em pequenos nadas. O cinzento, que já era leve, rendilhou-se aqui e ali, formando pequenas ilhas de luz no mar, umas maiores, outras mais pequenas, mas todas dourado-prata (são apenas acasos, o facto das pequenas ilhas de luz parecerem estarem no rasto dos saltos da pequena pedra e de serem sete as ilhas de luz, que se fixaram em momentos de cor. Acasos que nada tem a ver com a história. Só o sorriso do Mestre antevê premeditação em mentes mais místicas, mais dadas a outros pensares. Fiquemos com as coincidências que nos traçam os caminhos).
Gabriela, que continuava no seu jogo, distraiu-se, perdendo-se da bola. Esperava Sol enquanto jogava, e aquele reflexo-luz no meio do mar, mesmo ponteado, era prenúncio de sol. Estendeu a toalha, tomou livro e deitou-se.
Lê, com os lábios, divertida (mostra indefinição, incredulidade, pois precisa de ouvir o que os olhos pensam). Lê poesia. Faz pausas, afaga as páginas com carinho. Volta a trás e relê. Saboreia as palavras que imita com os lábios. Ouve o ritmo, a rima do poeta. Sorri, plena de si.

28.7.04

2

Cruza-me o olhar, velho, de pé, curvado de vida, a olhar o mar (desagrada-me ainda mais esta palavra, velho. Idoso, também, provoca careta, arrepio. Avô, gosto, será certamente, mas ainda não lhe criei história, prefiro chamar-lhe Mestre. Sei do abuso, não me conhece, não o conheço, apenas lhe cruzei olhar, mas a curvatura do corpo indicia que transmitiu saber, a muitos, todos mais jovens, daí a sua serenidade, de quem olha o mar cheio de confiança e sorriso-alma).
Mas o que me parou, a interiorizar esta nova personagem, foi o bigode, branco-branco, como o sorriso de Gabriela. Terão parte de caminho comum, na minha história. É uma inevitabilidade.
Intrigou-me este potencial avô, pela sua serenidade e a forma como me olhou, em quase intimidade. Sorriu-me tão ao de leve, que teve o efeito de uma tempestade que se mostra ao longe. Adivinho, interesse curioso por esta personagem da história que se atormenta no meu sentir. Tento pareceres com Mestres que me construíram o saber. Vasculho vagabundo as gavetas desarrumadas do existir, mas apenas encontro ao de leve, o olhar calmo defronte ao mar, de amigo que me ensinou a ver Deus pintar o céu com as nuvens e a descobrir-lhe formas, para fingir pequenas histórias que lhe contava, quando de mão dada, deitado na praia, me punha a criar bonecos no céu e a apontar para eles embriagado de felicidade. Ensinou-me mais, mas essa é história minha.
Nome: de rei sem reino, Gaspar. Gosto. Ficará Gaspar e decididamente, não será avô.
Estava sozinho na praia…

27.7.04

1

Há dias de luz-serena que somos tentados a colher da paisagem que nos envolve o ver, personagens que nos emocionaram e levá-las para casa e inventar-lhes uma história. Não há ponto de encontro, nem destino, nem acaso. Acaso só o facto de termos estado no mesmo cenário, com a mesma luz, a existir o momento…
Preparação da tela

Sentado ao fim de tarde de Julho, também ele no fim, olho o mar, é costume. Há um ambiente de sons, de cores e de profundidade que me levam a olhar o nada, à procura de palavras, em mim. Saboreio pensamentos, muitos deles, nem me contam história, andam por aí a fingir-se gaivotas e apenas se dignam a revelar-me sussurros espaçados em palavras que esqueço.
Estava nesta calma ausência, todo sentidos virado para dentro, quando oiço alegria de risos soltos. Sem olhar, por me encontra ainda, por dentro em concha que se perde no horizonte, tento precisar se a alegria que me invade é de criança ou outra qualquer. É a curiosidade que me faz aproximar do mundo que se movimenta à minha frente. Dançam em jogo de bola dois jovens, ele e ela. Paro-me nas linhas que saltam em bailado, da rapariga que se estica para tocar a bola que lhe esvoaça nas mãos. Movimentos lindos, desenho impossível de fixar, nem retratar, porque transmite alegria, que se reflecte em constante sorriso, de boca jovem que vive o instante, no lança que lança, de bola em dança. Não consigo retirar o ver do corpo, do olhar e dos risos que rasgam o ar que chegam a ofuscar o batuque-pandeireta de mar que se desenrola, no seu vai e vem, em recados de onda que só estando a sós se entendem e não o estou (tenho outras coisas no olhar). Cabelos escuros, pele de verão, pescoço esguio. Salta, dança, a bola é acessório de paisagem (desculpem a repetição, mas o movimento que a acompanha, ritmado de riso com orquestra de mar, só pode ser bailado, sensual, porque feminino, mais bonito que belo, porque harmonia. Tudo se conjuga em imagem que prende os sentidos, todos).
Não consigo realçar o que me comove o sentir, se o cabelo que esvoaça preso-livre, atado em linha esbelta, em cavalo-negro de desenho cubista, se o riso, branco-feliz, se os seios cheios, também eles dançarinos, também eles voadores, junto ao corpo que salta, levantando areia ao encontro de bola, ao vento. Não gosto da palavra seios, muito menos de mama, falta lhes a sensualidade do belo, não porque feias, mas porque lhes falta poesia, porque linguagem demasiado anatómica e leva o pensamento a consultório médico. O que o olhar me devolve para descrever tão graciosa escultura assemelha-se a gotas-vestidas-de-pele-seda-de-julho-quente, que florescem esculpidas no corpo, porque gotas têm a forma perfeita que a natureza lhe deu, porque seda cheira a flor (não sei de onde veio esta associação de sentires, mas se está escrita, é porque foi sentida), macia, na sua firmeza jovem (desenho-os, de longe, sem pensamentos outros que aqueles que a imagem me dá, porque estou maravilhado com o todo que ri sem parar, em alegria estonteante de criança grande, linda, trigueira de se ver). Pinto gazela, chamo-lhe Gabriela (talvez o nome tenha caído de leituras outras, não sei, digamos que sim, porque igualmente bela, igualmente sensual, na ingenuidade de se expor linda, a rir, furacão de riso que me embriaga o sentir). O nome não interessa, mas fica, talvez seja preciso mais tarde para dar nome a quadro, se conseguir artes e jeitos para pôr alegria em cor e desenho.
Ele, bruto, desenquadrado no ver. Exibe-se. Macho de tanga. Não a vê, só a bola. Não tem graça. Lembra-me soldado, desactivado, porque acumula tecido adiposo, de quem se vai desleixando de corpo e alma, se o não é, imita o estilo. Vejo-o fardado, a insultar os passageiros do comboio de fim-de-semana, de lata de cerveja na mão, a contar as suas proezas físicas e sexuais sem respeito por quem o espera, ansiosa, na estação de saída, em saudades de afectos e de corpo. Não lhe dei nome, não vou precisar dele mais tarde, ficará fora do quadro. Não cabe lá dentro (talvez esteja a ser injusto. Ciúme? Não de todo. Apenas estraga a imagem, a poesia do momento e não entremos em fantasias, que sou adepto da serenidade e da lealdade, e tenho afectos outros.) Pergunto-me, o que é que a minha história tem a ver com o facto de estar na praia, contagiado pela beleza de mulher, que teimou em dançar entre mim e o horizonte? Não respondo, porque me sei a mania de me meter onde não sou chamado e esta história não é a minha, eu só a desenho.
Não me canso de olhar, esqueço-me das horas, o tempo (des)existiu, só as gaivotas avisam o por do sol. Não tenho outro remédio, senão apanhar as duas vidas, como quem colhe duas flores, e transforma-las em personagens e levá-las comigo, para um dia, agarrar nelas e inventar-lhes uma história.

26.7.04

não é um blog

Tenho coisas para contar, que não consigo guardar no olhar. Não é um conto, nem sequer uma história. Desenganem-se os que pensam, como eu próprio, aliás que é ou pretende ser, uma autobiografia. São traços, pinceladas de imagens humanas e outras que se cruzam no meu caminho, e que o meu ver, capta. Vou mistura-las todas, criar-lhes caminhos, inventar-lhes acasos.Não tem ritmo de escrita. Não tenho tempo, nem jeito. É puro prazer e no prazer não se escolhe tempo. Surge de improviso e por instinto. Impulsos.